Blog do Dr. Alexandre Faisal

03/12/2009

O efeito placebo existe?

 Um estudo recente mostra que o efeito placebo pode estar relacionado a certas características da paciente e do médico e traz uma grande contribuição para o tratamento de algumas doenças, como por exemplo a Síndrome do Intestino Irritável.

 Você acha que a relação médico-paciente influencia a cura da doença?  Clique aqui para votar  

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         Você acredita em efeito placebo?. Efeito placebo é a melhora clínica obtida com uso de medicamentos sem ação terapêutica confirmada. Sua existência é aceita por muitos profissionais, mas o assunto é controverso. Pois bem, um estudo realizado nos Estados Unidos se propôs a esclarecer a questão, avaliando a eficácia do efeito placebo no tratamento da Síndrome do Intestino Irritável, que é uma afecção muito comum, que causa grande desconforto nos pacientes. Eles sofrem de diarréia e/ou obstipação, com cólicas abdominais. Não existe uma explicação muito clara para o problema, mas aceita-se uma importante participação do estresse.

           Para isto, quase 300 pacientes foram divididos em 3 grupos: um grupo que não recebeu nenhum tratamento, mas que foi orientado a esperar uma vaga para iniciar o tratamento; um grupo que recebeu  sessões de acupuntura placebo e um terceiro grupo, que recebeu o mesmo tipo de tratamento, mas com uma relação médico-paciente mais próxima e afetiva. Nas sessões de acupuntura placebo a introdução de agulhas não perfura a pele, já que um dispositivo apropriado a retrai e a o paciente não percebe. Após 3 meses de tratamento os grupos responderam questionários sobre os sintomas e sobre a relação com o profissional. Os resultados mostram que os 3 grupos apresentaram melhora clínica. O primeiro deles melhorou provavelmente pela expectativa de vir a ser tratado posteriormente e pela atenção recebida da equipe. O segundo melhorou apesar da atuação do profissional de saúde. Mas a melhora mais significativa ocorreu no terceiro. Neste grupo, os participantes mostraram grande satisfação com o desempenho do médico.

          O estudo confirma a existência do efeito placebo e sugere que dois fatores estão associados a ele, melhorando inclusive sua eficácia. A primeira são determinadas características da paciente, como por exemplo, ser mulher, estar aberta a novas experiências, ser afável e principalmente ser extrovertida. A segunda e talvez mais importante é uma boa relação com o médico. Neste caso espera-se que ele seja simpático e sensível aos sentimentos do paciente, isento de julgamentos, facilitador do diálogo e interessado nas histórias e significados atribuídos á doença. No grupo de tratamento onde os médicos adotaram um comportamento menos afetivo, sendo mais frios, racionais, burocráticos, falando pouco e didaticamente, com pouco interesse nas explicações dos pacientes, o efeito placebo foi menos evidente.

          A hipótese é que na relação médico-paciente ideal ocorra redução do estresse, com conseqüente melhora do sistema imune e diminuição da sensibilidade dolorosa, tudo isso mediado por hormônios e endorfinas. Novos estudos são necessários para confirmar estas hipóteses, incluindo pesquisas com outras doenças e com períodos mais longos de acompanhamento dos casos. Por enquanto o resultado é tudo de bom. E se for aplicável e verdadeiro para outros problemas, ele coloca o paciente que não está melhorando  e não está muito feliz com seu médico diante de um dilema: continuar doente ou mudar de médico (Kelley et al, 2009. Psychosomatic Medicine )

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 18h48

29/11/2009

O tipo de trabalho dos pais não afeta a cabeça dos filhos adolescentes

 Existe uma grande preocupação dos pais com a "cabeça" dos filhos adolescentes; se eles estão saudáveis, de bom humor, etc, etc. . Pais que trabalham em horários pouco habituais podem se sentir ainda mais preocupados

 Você mudaria seu horário de trabalho apenas para cuidar mais de perto do seu filho adolescente?  Faça seu comentário  

Escute o aúdio abaixo ou leia o texto na íntegra

 

  

          Se você e seu marido trabalham em horários pouco habituais e estão preocupados com a cabeça do seu filho adolescente, esqueçam. Como eles mesmos dizem: desencanem. Vem aí uma boa, ou melhor dizendo, uma ótima notícia. Isto se você é casada. Um estudo realizado na Austrália mostrou que o impacto do tipo do trabalho dos pais sobre a saúde mental dos filhos adolescentes é mínimo. Na pesquisa, os autores estudaram diversos parâmetros de bem estar e estado psicológico de mais de 1300 jovens com idade entre 15 e 20 anos para saber qual o grau de influência da jornada de trabalho dos pais biológicos, casados ou separados.

          O tipo de trabalho foi classificado em habitual, durante o dia ou não habitual, quando se tratava de trabalhos noturnos, plantões que alternam dia e noite, entre os outros. Uma jornada que é muito comum a muitos casais, que estão em diversas atividades, como por exemplo, na área da saúde, indústria, segurança, etc. As explicações para o resultado é que adolescentes já não dependem tanto dos pais e que no caso dos dois trabalharem em horários atípicos sempre haverá um por perto, o que minimiza o problema.

          Até aqui tudo bem, mas a situação se complica se você ou seu ex-marido cuida sozinha/sozinho do seu filho. Neste caso há maior risco dele apresentar problemas psicológicos. Nos casos de pais separados que têm carga horária atípica, a explicação para o transtorno emocional do adolescente pode estar localizada mesmo na ausência de um dos genitores, em casa. Mas para as mães existe uma atenuante. Os pesquisadores observaram que nestas condições de trabalho, ainda assim, as mulheres conseguiram se desdobrar e passar mais tempo com seus filhos. Coisa que não aconteceu com os homens. Mas eles também têm uma desculpa: os autores sugerem que importa mais a qualidade do tempo gasto com os filhos do que o tempo em si.

          Então, se não é possível ficar muito tempo com os filhos adolescentes, quando for, faça o que eles mesmos sempre dizem: “se liga veio”. (Dockery, Li, Kendall, 2009. Social Science & Medicine ).  

 

 

 

 

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 00h18

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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