Blog do Dr. Alexandre Faisal

17/06/2010

Malformação fetal após uso de Misoprostol

                                                               

 Uma das explicações para a redução do número de internações por abortamentos registradas pelo SUS, entre 1992 e 2005, em mulheres dos 15 aos 49 anos é a utilização de uma medicação denominada Misoprostol (Cytotec). No entanto, nem sempre o abortamento ocorre em decorrência do uso da medicação e algumas mulheres temem o risco de malformações fetais. Um estudo brasileiro analisa essa delicada questão

 Escute o aúdio abaixo ou leia o texto na íntegra

  

  

 

   

          No Brasil, o aborto é amparado por lei somente em casos de risco de morte para a mãe ou de estupro. Apesar de proibido, é prática comum no Brasil, com es­timativas divergentes, que variavam, na década de 1990, entre 300 mil e 3,3 milhões de abortos ilegais realizados a cada ano. Dados mais recentes indicam uma redução no número de internações por abortamento registradas pelo Sistema Único de Saúde, entre 1992 e 2005 abrangendo todos os grupos etários, de 15 a 49 anos. Uma das explicações para esse fato é a utilização de uma medicação denominada Misoprostol (Cytotec®).

          A droga é de utilização exclusiva hospitalar, mas é adquirida e empregada de forma clandestina pelas gestantes que desejam interromper a gravidez, sem serem submetidas a procedimentos invasivos. Sua eficácia nessa utilização sem assistência médica é questionada, com falhas estimadas em até 10% dos casos. Aí começa o problema. Nesses casos, a gestação continua e o feto é exposto a um risco de eventos adversos que ainda não é amplamente conhecido. Um estudo caso-controle nacional realizado nas 4 principais maternidades de Fortaleza  procurou identificar, em recém-nascidos malformados e normais, a frequência de exposição ao Misoprostol e o tipo de malformações a ela associadas. Para isso eles fizeram uma busca ativa diária, identificando recém-nascidos com diagnóstico de malformação fetal (os casos) e recém-nascidos saudáveis (os chamados controles) do mesmo sexo nascidos em seguida na mesma maternidade. A amostra foi de 252 parturientes entrevistadas por equipe treinada utilizando questionário estruturado.

          Quanto aos resultados, não houve diferenças significativas entre os grupos, caso e controle, quanto à maioria dos fatores de riscos investigados para malformações. O uso de Misoprostol foi declarado por 53% das mulheres que mencionaram tentativa de aborto. No geral, a tentativa de aborto foi de 6,8%, havendo uma maior exposição ao Misoprostol durante a gestação em recém-nascidos malformados comparados aos recém nascidos saudáveis. As malformações encontradas entre os recém-nascidos expostos ao Misoprostol foram os defeitos do tubo neural e a disrupção vascular.

           Os achados deste estudo alertam para os eventuais riscos da substância, mas sugere a necessidade de mais estudos. Principalmente, aqui no Brasil, onde, infelizmente, o controle de medicamentos não é tão eficaz. E nesse caso seria bom que fosse. (Opaleye et al, Avaliação de riscos teratogênicos em gestações expostas ao misoprostol. RBGO 2010;32(1):19-25).

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 19h25

15/06/2010

Satisfação após 1 ano da retirada do útero (histerectomia)

  Muitas mulheres precisam ser submetidas à histerectomia, a retirada cirúrgica do útero, em geral, por razões benignas. Um estudo americano avalia o grau de satisfação das mulheres que retiraram o útero, 1 ano após a realização da cirurgia

 Você acha que a retirada do útero interfere na vida sexual da mulher? .  Faça seu comentário

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        Você já ouviu falar em histerectomia?. É a retirada cirúrgica do útero, que pode ser realizada para tratamento do câncer cervical ou por razões benignas, tais como mioma ou endometriose. Trata-se de uma cirurgia muito comum e para darmos um exemplo disso, nos Estados Unidos mais de 500 mil mulheres se submetem à histerectomia por razões benignas. Pois bem, um estudo americano tratou de avaliar um aspecto importantíssimo do problema: quais são os fatores que se associam com a realização da cirurgia e com satisfação com o resultado da mesma.

          Para isso mais de 1400 mulheres que estavam na pré-menopausa, residentes em São Francisco, Califórnia, foram seguidas por 8 anos. A cada ano elas respondiam a diversos questionários, tendo sido registrados os casos de histerectomia, que ocorreram neste intervalo.  No total, 207 mulheres, ou 14% da mostra, foram submetidas à retirada do útero. Quanto aos resultados, ficou evidente que não são apenas os já conhecidos problemas clínicos, tais como mioma e sangramento incontrolável, que predizem a cirurgia. Impacto na sexualidade, vida mental e considerar benéfica a retirada do útero também eram importantes.

          A outra boa notícia é que 85% das mulheres estavam satisfeitas ou muito satisfeitas após um ano da cirurgia. Uma das explicações para isso foi a percepção de que os sintomas melhoraram aliada a uma posição mais favorável ao fato de não ter ou ficar sem o útero. Ou seja, a atitude da mulher em relação ao útero e a própria cirurgia são importantes tanto para determinar a chance de vir a ser operada, quanto de ficar satisfeita com o resultado da cirurgia.

          A recomendação dos autores da pesquisa é que os médicos indaguem suas pacientes sobre suas expectativas e concepções, antes de optarem direto pela operação. É o  caminho mais seguro para ambos: para a paciente não perder o útero e ficar desapontada, e para o médico não vir a perder sua paciente. (Kupperman et al. Predictors of hysterectomy use and satisfaction. Obstetrics & Gynecol 115,3:543-551, 2010).  

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 13h45

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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