Blog do Dr. Alexandre Faisal

05/11/2010

Vivências negativas após cesariana

   Após uma cesariana, as mulheres podem ter diferentes sentimentos e emoções. Um estudo australiano qualitativo aborda esse delicado tema mostrando que algumas vivências são bem negativas

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   Escute o aúdio abaixo ou leia o texto na íntegra

 

 

 

      As taxas de cesariana crescem em diversos países do mundo, incluindo os países ricos. Muitos estudos procuram entender os motivos deste crescimento, que seguramente não é explicado apenas por indicações médicas. Mas há uma carência de estudos qualitativos que abordem as vivências das mulheres que foram submetidas à cesariana.

 

       Um estudo australiano preenche esta lacuna e fornece dados interessantes para as mulheres que pensam em ter filhos. Os autores da pesquisa fizeram diversas entrevistas, gravadas e codificadas, com 32 mulheres que tiveram uma cesariana em diferentes momentos: após o parto, pouco depois da alta hospitalar e entre cinco meses e sete anos após a cirurgia. 7 participantes tiveram também partos normais, num segundo momento, e juntas elas tiveram 68 partos. As mulheres foram classificadas de acordo com a indicação do procedimento cirúrgico: por razões de risco de vida, por opção ou por uma situação médica não bem definida.

 

        O dado mais interessante da pesquisa é que 30 das 32 mulheres relataram dificuldades em seguir as orientações recebidas já na alta hospitalar e que a recuperação física foi dificultada por uma série de questões de saúde, incluindo dor e redução mobilidade, problemas na ferida abdominal, infecções, hemorragias vaginais e incontinência urinária. Para citar um exemplo, muitas referiram dor no local da cirurgia que atrapalhava a execução das importantes tarefas de mãe e dona de casa. Ou seja, elas relataram uma série de negativas imprevistas e indesejadas resultados de saúde física após o parto por cesariana.

 

       E reforça a necessidade de que de a cesariana seja reservada para circunstâncias em que o benefício é conhecido, para compensar os danos. Fica claro também que essa dimensão do problema não pode ser avaliada, previamente, nem pelo obstetra, que muitas vezes, ainda que nem sempre, chega a alertar sobre os riscos do parto operatório, nem pela mulher que desconfia, mas não sabe exatamente o que vai encontrar.

 

       É aquela velha história da inexperiência, de ser marinheira de primeira viagem. Bem, se for este o seu caso, viaje, de parto normal 

 

(Kealy, Small & Liamputtong. Recovery after caesarean birth: a qualitative study of women's accounts in Victoria, Australia. BMC Pregnancy and Childbirth 2010, 10:47)

 

Escrito por Interação às 13h01

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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