Blog do Dr. Alexandre Faisal

06/09/2011

Quem superestima os riscos na gravidez?

     Estimar riscos na gravidez não é fácil, ainda que gestantes e obstetras se preocupem com isso frequentemente. Um  editorial discute a questão, atual e relevante, também para as gestantes brasileiras

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     Escute o aúdio abaixo ou leia o texto na íntegra

       

    

        

          Muitas gestantes conhecem este problema, bem de perto. E muitos obstetras não sabem como escapar dele. Estamos falando da estimação de riscos na gestação. É isso aí. Apresentar para a futura mamãe uma previsão confiável dos riscos que ela e, eventualmente, seu bebê estarão correndo. Quais os perigos reais envolvidos com a gravidez e parto. O fato é que até hoje, mesmo com os avanços tecnológicos, a obstetrícia não foi capaz de acabar com o risco inerente à gestação. Risco, em geral pequeno, diga-se de passagem. Mas isso se explica pelo simples fato de que fatores desconhecidos são ainda responsáveis pela morbi-mortalidade peri-natal, em circunstâncias que pareciam absolutamente seguras. Enquanto, por outro lado, bebês perfeitamente saudáveis nascem em circunstâncias que pareciam ser de alto risco. Não é de se estranhar que, atualmente, a gravidez é, muitas vezes, acompanhada por certo grau de estresse para a paciente e para o profissional de saúde que a atende.

 

          Pois bem, uma publicação recente aborda a questão da estimação o risco em obstetrícia destacando aspectos importantes. Um deles se refere a um problema atualíssimo; a cultura do litígio que resulta no que vem sendo chamado de “medicina defensiva”. Fenômeno observado em outras áreas da medicina, mas muito, muito comum, em obstetrícia. Mais ainda quando se trata de medicina privada. Nesta prática, médicos procuram se resguardar de eventuais litígios legais, resultantes de complicações, muitas vezes, inesperadas, no curso do atendimento obstétrico. No parto, por exemplo. Para isso adotam serei de medidas protetoras, exageram o risco e estão menos aptos a enfrentarem as complicações de última hora. Por sua vez, gestantes cobram, às vezes, dos obstetras compromissos com resultados ou fins e não com os meios. Para ficar apenas com o exemplo do parto, uma gestantes pode querer parto normal, mas não aceitar dor além do imaginado ou a utilização  necessária do parto fórceps. O médico pode, por sua vez, para não correr este ou outros riscos induzir a gestante a realizar uma cesariana programada ou no início do trabalho de parto.

 

          Mas a verdade é que os exemplos se multiplicam. E a conseqüência da percepção inadequada do risco, ou do aumento do risco, é o incremento da ansiedade na gestante e nos seus familiares. O evento gravidez e parto pode mesmo se tornar uma experiência traumática que não se resolve facilmente e pode perdurar assim por muito tempo. E o que era para ser uma festa, vira um drama. Alguns podem lembrar que de qualquer modo, com ou sem gravidez, viver é perigoso. E eu completaria que, ainda assim, vale a pena estar vivo. (Robinson et al. The over-estimation of risk in pregnancy. Journal of Psychosomatic Obstetrics & Gynecology, 2011)

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 11h18

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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