Blog do Dr. Alexandre Faisal

04/10/2011

Apenas 16% das mães aleitam nas primeiras 24 horas pós parto

    Ninguém duvida dos benefícios do aleitamento natural. Mas o aleitamento nas primeiras horas após o parto não é tão comum como deveria. Um estudo nacional aborda o problema

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     Escute o aúdio abaixo ou leia o texto na íntegra

   

    

     

          A cena de filme é linda e emocionante. A mãe cansada e suada do esforço pós-parto recebe seu bebê para o aleitamento e vai ficar por um tempo nesta calorosa recepção de boas vindas. Difícil não se encantar com a cena, mas ela está ficando cada vez mais rara. Isso mesmo. Aleitamento na primeira hora após o parto é pouco freqüente. Esta é uma das conclusões de um estudo nacional que procurou também identificar os fatores associados à amamentação na primeira hora de vida. Trata-se de estudo transversal realizado com parturientes de maternidades do Rio de Janeiro, nos anos de 1999 a 2001. No total foram analisados mais de 8.000 pares mães-bebês que estavam aptos a amamentar.

 

          Resultado mais impressionante, para não dizer decepcionante, apenas, 16% das mães amamentaram na primeira hora de vida do recém-nascido. Outros achados da pesquisa; o aleitamento materno nesse período foi menos prevalente entre os recém-nascidos com intercorrências imediatas após o parto; entre as mães que não tiveram contato com os recém-nascidos na sala de parto, naquelas mulheres que tiveram cesariana, e nos partos realizados em maternidade privada ou conveniada com o Sistema Único de Saúde. Mais importante ainda, em nível individual, a amamentação na primeira hora de nascimento foi prejudicada por práticas inadequadas nas maternidades. O fato é que as práticas hospitalares, mas não o desejo e a decisão das mães de amamentar, estão determinando este baixo índice de aleitamento pós-parto. O efeito das normas das maternidades e a ausência de fatores individuais maternos que expliquem o desfecho sugerem que as mães têm pouco ou nenhum poder de decisão sobre essa amamentação e dependem das práticas institucionais vigentes nestes estabelecimentos. Desnecessário dizer que a amamentação na primeira hora de vida é recomendada pela Organização Mundial da Saúde e é importante para o estabelecimento do vínculo mãe-bebê, além de aumentar a duração do aleitamento materno e reduzir a mortalidade neonatal.

 

          Os resultados deste estudo são ainda piores que dados prévios que já indicavam que a prática da amamentação na primeira hora de vida, no Brasil, é relativamente baixa, ao redor de 43%. Com resultados como esse, pode ser que a cena continue emocionante, mas o filme, neste caso, só pode ser de horror. (Boccolini et al.  Fatores associados à amamentação na primeira hora de vida. Rev. Saúde Pública 2011, 45(1):69-78).

 

 

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 10h10

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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