Blog do Dr. Alexandre Faisal

09/04/2012

Risco de "sobretratamento" após mamografia

  

     Avaliar os benefícios e riscos dos exames preventivos é sempre importante. Um estudo norueguês quantifica estes aspectos no caso da mamografia após os 50 anos de idade

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          Muitas pessoas e mesmo médicos acreditam que fazer exames preventivos é o caminho mais seguro para uma vida longa e saudável. Isso se aplica a muitas mulheres e, em particular, ao exame da mamografia. Mas o fato é que as coisas não são exatamente deste jeito. E a questão dos exames preventivos ou rastreamento de doenças em pessoas saudáveis é bem mais complexa do que parece. Um recente estudo norueguês exemplifica o caso da mamografia, o padrão ouro no rastreamento populacional do câncer de mama. Nesta pesquisa dois grupos de mulheres foram comparados: mulheres com idades entre 50 e 69 anos, que realizaram mamografia anualmente e mulheres que não se submeteram ao exame.

         Os pesquisadores observaram um aumento de 15 a 25% no diagnóstico de câncer de mama no grupo das mulheres que faziam mamografia regularmente. E a partir do diagnóstico recebiam tratamentos, como cirurgias e quimioterapia, que, provavelmente, não seriam necessários. Exatamente isso, procedimentos e terapias desnecessárias, pois muitos casos se tratavam de tumores muito pequenos ou menos agressivos que levariam anos para se desenvolver. Isso sem contar o risco de não serem sequer tumores, os chamados resultados “falso positivos”. Vale lembrar que hoje, com o desenvolvimento das técnicas de imagem, diagnosticar tumores muito pequenos é cada vez mais comum. E uma vez feito a suspeita diagnóstica é preciso indicar investigação mais detalhada e, eventualmente, tratamento.

          Por outro lado, o estudo confirma que o exame, a mamografia, evita a morte de uma em cada 2500 mulheres. Pode não parecer muito, mas é significativo se pensarmos em grande número de mulheres. Isso sem contar o fato de que a mortalidade por câncer de mama é ainda muito alta, inclusive no Brasil.

          O tema é polêmico, mas antes que as mulheres comecem a ter a sensação errada de “que não adianta fazer nada para manter a saúde” é preciso aguardar novas recomendações das entidades médicas. Por enquanto, a orientação para as brasileiras é a mesma: mamografia a cada 2 anos após os 40 anos de idade, apesar dos riscos potenciais do exame. Mas muitas mulheres podem sabiamente argumentar: viver é mesmo um pouco arriscado. (Elmore JG, Fletcher SW. Overdiagnosis in breast cancer screening: time to tackle an underappreciated harm. Ann Intern Med. 2012 Apr 3;156(7):536-7)

   

   

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 23h30

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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