Blog do Dr. Alexandre Faisal

17/04/2012

Eventos traumáticos na infância se associam com abortamentos de repetição

      Muitas gestações não planejadas terminam em abortamento. Pior ainda, abortos de repetição não são assim tão incomuns. Um estudo americano avalia se eventos traumáticos na infância se associam com o problema 

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          Um dado americano sugere que a gravidez indesejada representa quase 50% de todas as gestações, e que aproximadamente 40% das gestações não planejadas terminem em aborto provocado. Abortos de repetição também são comuns nos Estados Unidos. De fato, é grande a chance da mulher com um aborto vir a ter um seguindo ou terceiro abortamento. No Brasil não existem dados confiáveis sobre o problema. A experiência de ter um aborto inicial oferece uma poderosa oportunidade para intervir na prevenção de gestação não intencional subseqüente. Mas os benefícios deste tipo de intervenção parecem ter sucesso limitado.

           Um estudo americano procurou caracterizar melhor as mulheres que se submeteram a abortamento de repetição, enfocando, em particular, a presença de eventos vitais estressantes na infância, até os 12 anos de idade. Foram avaliadas 259 mulheres, com idade média de 35 anos, que tinham tido 1 ou 2 (ou mais) abortos provocados. Resultado surpreendente, independentemente de outros fatores, as mulheres que experimentaram mais abuso, problemas relacionados à segurança pessoal, e maior número de eventos adversos na infância eram mais propensas a ter 2 ou mais abortos na comparação com mulheres que nunca haviam feito um aborto. Do mesmo modo, mulheres que experimentaram mais perturbação familiares na infância tinham maior probabilidade de ter 2 ou mais abortos. Um aumento do risco de 75%.

           Como explicar esta associação?. Os autores admitem que mulheres que estiveram expostas a altos níveis de estresse na infância podem experimentar uma variedade de barreiras para a prevenção de gravidezes indesejadas. E eles citam práticas sexuais de risco, problemas mentais e dificuldade de estabelecer relacionamentos íntimos estáveis saudáveis. Todas estas experiências têm implicações potenciais para o efetivo uso de contraceptivos. Apesar das limitações do tipo de estudo, que, por exemplo, confia apenas nas auto-avaliações das próprias participantes, ele tem pelo menos um grande mérito. Mostrar que muitas das complicações e dificuldades da nossa vida atual, de fato começaram bem antes disso. (Bleil et al. Adverse childhood experiences and repeat induced abortion. Am J Obstet Gynecol 2011;204:122.e1-6)

 

 

    

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 14h09

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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