Blog do Dr. Alexandre Faisal

05/06/2012

Vale a pena fazer força no trabalho de parto?

    Nas etapas finais do trabalho de parto, a mulher, muitas vezes, é encorajada a fazer força para auxiliar na expulsão do feto. Uma revisão de estudos avalia se esta prática é adequada para o bebê e para a mãe

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          A imagem é mundialmente conhecida: a mulher em trabalho de parto, já perto do nascimento do bebê é estimulada a fazer força para que ele nasça. Ela sua, se esforça, sob os estímulos animados do médico, enfermeira e do parceiro. Parece bacana, mas não é. Pelo menos é o que sugere uma revisão de estudos afins conduzida por pesquisadores da renomada Fundação Cochrane. Isso mesmo: o procedimento acima, conhecido com Manobra de Valsalva, não traz grandes benefícios e pode sim acarretar prejuízos. Nesta revisão foram incluídos 3 ensaios clínicos com 425 mulheres que estavam dando a luz pela primeira vez e que não haviam recebido analgesia peridural, no trabalho de parto.

 

          Principais resultados: não se observaram diferenças entre as mulheres que fizeram ou não força neste momento do parto quanto aos seguintes desfechos: parto fóceps ou cesariana, necessidade de sutura perineal e hemorragia pós-parto. Uma vantagem de se fazer a manobra de valsalva foi o encurtamento do trabalho de parto. Um ganho de, mais ou menos, 18 minutos até o nascimento do bebê. Quanto ao recém-nascido nenhuma diferença. Até aí tudo bem. Mas o problema aparece na avaliação urodinâmica feita três meses pós-parto. Mulheres que se submeteram ao esforço mencionado tinham mais urgência miccional e menor capacidade vesical. Ou seja, uma resposta urodinâmica prejudicada. Para os autores, o benefício do encurtamento do trabalho de parto é duvidoso e o risco de complicações urológicas possível, para que se continue recomendando as gestantes esta manobra. Mas eles destacam também que são necessários mais estudos para se recomendar o fim desta tão conhecida e popular manobra.

 

          Pode ser que muitas mulheres, naturalistas e adeptas do parto vaginal, se decepcionam com estas conclusões. Mas isso não deve impedí-las de continuar batalhando por um parto natural. Por enquanto, no entanto, elas não devem contar com os gritos e pedidos de força dos seus obstetras e maridos. (Prins M, Boxem J, Lucas C, Hutton E. Effect of spontaneous pushing versus Valsalva pushing in the second stage of labour on mother and fetus: a systematic review of randomised trials. BJOG 2011;118:662–670.)

 

   

   

    

   

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 12h48

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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