Blog do Dr. Alexandre Faisal

29/06/2012

Vale a pena substituir o exame de Papanicolau na prevenção do câncer cervical?

 

       O exame de Papanicolau para prevenção do câncer do colo uterino é consagrado mundialmente. Um estudo inglês discute se, de fato, ele é o exame com melhor relação custo-efetividade para as mulheres

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         Quase todas as mulheres sabem o que é o exame de Papanicolau. A grande maioria, felizmente, diga-se de passagem, já fez, recentemente ou ao longo da vida, pelo menos um exame de Papanicolau. A técnica empregada no exame citológico preventivo do câncer de colo uterino é um exame consagrado, uma unanimidade, em diversos países do mundo. Mas isso pode mudar. Isso mesmo. Pode mudar, já que estão surgindo novas propostas para o rastreamento do câncer cervical. E disto que trata um estudo recém-publicado no British Medical Journal que avaliou o custo-efetividade de mais de 1500 diferentes estratégias de prevenção deste câncer, levando em conta diversos cenários, tais como rastreamento prévio, qualidade e custos dos testes de diagnóstico, além da prevalência do vírus HPV.

          Como se sabe, muitas evidências científicas confirmam o papel essencial de certas cepas do HPV na gênese do câncer do colo uterino. Hoje, aceita-se que não existe câncer do colo uterino sem a presença do HPV. Portanto, técnicas de detecção precoce do vírus podem, em tese, ser mais custo-efetivas, sendo que uma boa relação custo-efetividade significa mais anos com qualidade de vida. Resumo da história é que para muitos países europeus a prevenção deveria ser mudada de citologia para pesquisa de HPV. A manutenção da citologia, ou seja, do Papanicolau ficaria restrita aos países onde o exame é de baixo custo. E aos países onde a prevalência e os custos da genotipagem do HPV são altos.

          Para as brasileiras que, a esta altura, devem estar pensando “o que elas devem fazer”, a recomendação é de muita calma nesta hora. Os resultados desta interessante pesquisa não podem ser diretamente aplicados na população brasileira. Mas eles servem para nos alertar sobre os progressos constantes da medicina. No caso do exame de Papanicolau, aquele conhecido dito popular “não se mexe em time que está ganhando” pode estar com os dias contados. (Kok et al. Primary screening for human papillomavirus compared with citology screening for cervical cancer in European settings: cost effectiveness analysis based on a Dutch microsimulation model. BMJ 2012) 

    

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 17h31

26/06/2012

Qual a melhor pílula: monofásica ou trifásica?

     As formulações e dosagens da pílulas anticoncepcionais mudaram muito nas últimas décadas. Uma revisão de estudos compara as pílulas monofásicas, mais antigas, com as trifásicas, mais modernas  

    Você prefere usar pílulas tradicionais ou as recém lançadas?  Clique aqui para votar 

      

   

   

   

        Pílulas anticoncepcionais são o método mais comum de contracepção em mulheres no mundo inteiro. Ao longo dos anos diversas formulações de pílulas foram criadas com o intuito de diminuir os eventuais efeitos colaterais do método: sangramento no meio ou no fim do ciclo, mal estar gástrico, queixas pré-menstruais, melhora da pele, retenção hídrica, etc, etc. Efeitos adversos que muitas levam à descontinuação da pílula e consequentemente risco de gravidez não planejada. Dentre estas novas formulações, destaca-se as chamadas pílulas trifásicas, que como diz o próprio nome, tem 3 fases distintas dos componentes estrógeno e progesterona. Ao contrário da pílula monofásica, mais antiga e consagrada, que só tem uma quantidade fixa dos mesmos hormônios.

 

         Pílulas trifásicas, surgidas na década de 80, em tese, deveriam ter propiciar melhor controle de ciclo, menos efeitos colaterais e até menos gestações acidentais. Poderiam, mas isso não está ainda comprovado. Esta é a conclusão de uma revisão de estudos de pesquisadores da fundação Cochrane. 19 estudos clínicos comparando pílulas monofásicas e trifásicas foram incluídos. A diferença no controle do ciclo em favor dos trifásicos não fica evidente na revisão conjunta dos estudos. Diferenças metodológicas entre os estudos, incluindo o modo de avaliar as irregularidades menstruais, bem como as diferentes dosagens e tipos de hormônios e progesterona usadas, nas várias pílulas testadas, impediu uma conclusão segura. Aparentemente, taxas de descontinuação dos dois tipos de contraceptivos foram semelhantes.

 

        Final da história, são necessários novos estudos e mais tempo observação. E segundo os pesquisadores, as pílulas monofásicas ainda são a primeira a recomendação para as mulheres que vão iniciar o uso de pílula anticoncepcional. Um jeito científico de dizer ”não se mexe em time que está ganhando”. (Van Vliet et al. Triphasic versus monophasic oral contraceptives for contraception. Cochrane Database Syst Rev. 2011, 9;11:CD003553)

   

    

   

   

  

 

 

 

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 20h15

Fatores associados ao início da vida sexual precoce no Brasil

       O início da vida sexual é momento importantíssimo na vida dos jovens. Um estudo brasileiro investiga a época e as razões associadas à primeira relação sexual, para meninos e meninas

    Você considera legal iniciar a vida sexual com que idade?  Clique aqui para votar 

 

 

 

 

 

         Educadores e, principalmente, os pais podem não gostar. Mas, no Brasil, a idade média da primeira relação sexual para o menino é 14 anos, enquanto para as meninas é 15 anos. Muitos podem considerar (muito) cedo. Ou mesmo muito, muito, cedo. Compreender os fatores associados à este início precoce é importantíssimo para planejar medidas educativas e orientação sexual para estes jovens. Um estudo brasileiro fez isso entrevistando mais de 1600 jovens brasileiros de Pelotas, no RGS, com idades entre 18 e 24 anos, que relataram suas experiências sexuais passadas.

 

         Os pesquisadores observaram que os seguintes fatores se associam à primeira relação, em jovens adolescentes: nível sócio econômico mais baixo, menor escolaridade, não seguir nenhum religião e ter pais divorciados. A constatação é de que a condição sócio-econômica dos entrevistados contribui, e muito, para a chamada coitarca, ou seja, o primeiro coito. A hipótese é que em condições adversas, de vulnerabilidade social os jovens podem antecipar etapas da vida, inclusive a iniciação sexual. Pode ser que eles ao assumirem responsabilidades de adulto, assumam também condutas sexuais de adultos. O estudo confirma também que a iniciação dos meninos é ainda mais precoce do que das meninas. A explicação deve passar pelas influências sociais e culturais: meninos são instigados a começarem a atividade sexual como parte da passagem para a vida adulta.

 

        Já as meninas são pressionadas para manter a abstinência até o casamento.  Mas um dado ainda mais preocupante do estudo é a observação de que os jovens estão assumindo cada vez mais comportamentos de risco. Entre os jovens que começam a fazer sexo mais cedo, tabagismo, uso de drogas ilícitas, ausência do uso da camisinha e ter muitos parceiros/parceiras é comum. Isso sem contar o consumo de álcool, sugerido por outros estudos, mas não confirmada neste estudo. Os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de se abordar o tema da iniciação sexual preventivamente e, eu diria, também, precocemente. Uma abordagem que não tenha vieses religiosos ou moralistas, mas sim, que permita aos jovens um comportamento sexual mais maduro e responsável, que inclua um início de vida sexual saudável, prazeroso e sem traumas, que não comprometa suas perspectivas futuras.  

 

        Porque muitos deles não sabem, ou não querem saber, que quem inicia a vida sexual muito cedo, sem estar preparado, pode estar deixando para trás a juventude. E como todos sabemos, a juventude não volta (Hugo et al. Fatores associados à idade da primeira relação sexual em jovens: estudo de base populacional. Cad. Saúde Pública 27(11):2207-2214, 2011)

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 19h54

Quanto mais cesarianas, pior

      O aumento das cesarianas, em diversas partes do mundo, pode ter consequências negativas para  a saúde e futuro reprodutivo de muitas mulheres. Uma revisão sistemática de estudos explica como isso ocorre

    Até quantas cesarianas você aceitaria se submeter?  Clique aqui para votar 

 

 

 

 

            O aumento do número de cesarianas em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, preocupa os profissionais de saúde e as agências de saúde. Nos Estados Unidos, um encontro sobre “a realização de partos vaginais após cesarianas” teve algumas de suas conclusões baseadas numa revisão sistemática de estudos sobre o impacto das cesarianas sobre a saúde materna e fetal. E as conclusões, que não são novas, também não são nada boas.

           Para a revisão foram avaliados 21 estudos que combinados somaram perto de 2 milhões e 300 mil partos. As taxas de histerectomia, a retirada do útero, transfusões de sangue, e lesões durante o procedimento aumentaram com o maior número de cesarianas. Uma complicação gravíssima, a placenta prévia, situação na qual a placenta fica firmemente e patologicamente aderida ao útero, levando a sangramento, muitas vezes, incontroláveis e fatias, também aumentou. Para ficar mais claro, a incidência de placenta prévia variou de 1 em 100, nos casos de 1 cesariana anterior, para quase 3 em 100, no caso de mulheres com 3 cesarianas prévias.

          Desnecessário dizer que a mortalidade materna foi muito maior nestes casos de várias cesarianas. Muitas mulheres, apoiadas por seus médicos, podem contra-argumentar que não terão muitas cesarianas, de jeito nenhum. Quando muito, uma ou duas, ao longo da vida. Se esse argumento é difícil de garantir ou contestar, vale lembrar que no caso de cesarianas, quanto menos, melhor.   (Marshall NE, Fu R, Guise JM. Impact of multiple cesarean deliveries on maternal morbidity: a systematic review. Am J Obstet Gynecol. 2011; 205:262.e1-8)

 

 

 

 

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 15h01

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

Histórico