Blog do Dr. Alexandre Faisal

26/12/2012

Altruístas agem intuitivamente ou reflexivamente?

   

Em certas épocas, como no Natal e Ano Novo, as pessoas procuram fazer ações altruístas. Uma pesquisa publicada na "Nature" investiga se a cooperação com os outros é intuiva ou reflexiva

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          Cooperação é fundamental para o comportamento em sociedade. No entanto, optar por cooperar requer que os indivíduos incorram em custo pessoal em benefício dos outros. Como isso ocorre não é um processo bem explicado. Em outros termos, existe uma dúvida se são as ações intuitivas ou as reflexivas que resultam em comportamentos altruístas. Para ser ainda mais direto, a pergunta a ser respondida por você ouvinte é: na hora de decidir pelo bem comum é a intuição ou a reflexão que conta?. Para esclarecer este tópico, pesquisador laureado com prêmio Nobel fez uma série de 10 experimentos com o público, usando uma plataforma na internet e testes em laboratório. Para ilustrar um deles, as pessoas recebiam uma pequena soma em dinheiro, que poderia ser, em grande parte, reinvestida em prol do grupo. No cenário ideal de cooperação todos investiriam esta parte no grupo, a soma seria multiplicada e o dinheiro arrecado seria revertido para todos. Mas o participante poderia optar por manter sua parte e esperar que os outros aplicassem no grupo. Neste caso ele seria beneficiado com a distribuição do dinheiro investido dos outros. O dinheiro dele no final das contas já estaria egoisticamente garantido. Para tomar esta decisão as pessoas tinham um tempo de 10 segundos. Para os autores, decidir investir no grupo em 10 segundos era uma prova da decisão por intuição. Mais tempo do que isso, seria exemplo de reflexão mais elaborada.

          Bem, ai vem o resultado da pesquisa. Pessoas que decidiram rapidamente, ou melhor dizendo intuitivamente, doaram mais dinheiro para o bem estar do grupo. As que pensaram muito doaram menos, sendo, portanto, mais egoístas. Em outras palavras, os resultados fornecem evidência convergente de que a intuição é favorável à cooperação em dilemas sociais, e que a reflexão pode minar estes impulsos de cooperação. Mas os autores não pararam por aí e conduziram outros experimentos que ampliaram as conclusões da pesquisa. A saber, que este comportamento altruísta muda um pouco, para pior, se a pessoa já passou pela situação num momento prévio. Mas se mantem, em prol do bem comum e do outro, se a situação envolve alguém com quem a pessoa tenha convivência próxima cooperativa. E para concluir, eles sugerem os porques das pessoas serem intuitivamente predispostas para a cooperação: as pessoas desenvolvem suas intuições no contexto do dia vida, onde a cooperação é normalmente vantajosa, a reputação está muitas vezes em jogo e sanções para o comportamento bom ou ruim podem existir.

          Mas eles admitem também que apesar da maioria das pessoas ser cooperativa, existe grande variedade de comportamentos entre elas. Bem, da próxima vez que você quiser avaliar se o outro é altruísta, proponha-lhe um dilema. Se ele demorar mais do que 10 segundos para responder desconfie da resposta, ou da pessoa. (Rand et al. Spontaneous giving and calculated greed. Nature 489; 427-430; 2012)

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 13h36

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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