Blog do Dr. Alexandre Faisal

22/04/2013

O uso da pílula do dia seguinte ficou menos complicado no Brasil (e nos Estados Unidos)

O uso da pílula do dia seguinte, uma solução possível para redução do número de gestações não planejadas, esbarra em aspectos socio-econômicos.  Um editorial americano comenta o assunto que remete à uma decisão judicial americana e a uma louvável decisão do governo brasileiro

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          A decisão de um juiz americano (ver em http://viajwat.ch/14UedCA), em abril de 2013, promete ampliar os direitos das mulheres à contracepção hormonal. No caso, a contracepção de emergência ou mais popularmente conhecida como pílula do dia seguinte. O juiz federal Edward Korman liberou o acesso aos contraceptivos com Levonorgestrel, presente na pílula do dia seguinte, as mulheres com menos de 17 anos de idade, contrariando decisão prévia, de 2011, que limitava o uso desta modalidade de contracepção apenas as mulheres mais velhas. Uma grande conquista feminina que está em perfeita sincronia com uma notícia veiculada na mídia, semana passada, sobre uma decisão do Governo Federal brasileiro: distribuir 175 mil cartilhas para a rede pública de saúde, esclarecendo à população como se obter tal medicação. Trata-se de excelente notícia já que isso vai permitir redução do número de gestações indesejadas numa parcela da população que é menos informada ou tem menor acesso a este método por questões econômicas. No livreto a ser distribuído, por exemplo, vai ser explicado que os comprimidos podem ser entregues por uma enfermeira sem receita médica. Isso muda tudo já que se a mulher for esperar dias ou meses para uma consulta com o ginecologista a pílula não funciona mais. 

          Aproveitando a carona da decisão do juiz, um editorial americano de site de saúde destaca alguns aspectos sobre o uso deste tipo de método que ainda causa muita dúvida. De fato, existem dois tipos de formulações disponíveis no Brasil. Uma delas vem em dose única e a outra contém dois comprimidos (um ingerido logo após a relação sexual e outro após 12 horas). Seja qual for o tipo, ele deve ser usado no máximo 72 horas após a relação sexual. Quanto mais tempo demorar, menor será a eficácia. Até o quinto dia, ele pode ser usado, mas a eficácia é muito menor. E, ao contrário, do que muitas mulheres pensam a pílula não funciona como um abortivo. Os mecanismos de ação da pílula com o levonorgestrel são: alteração da secreção vaginal tornando o meio hostil para os espermatozoides que não conseguem chegar ao óvulo; impedir ou retardar a ovulação, caso isso não tenha ocorrido; se ocorrer a fertilização, a pílula altera a parede uterina impedindo a fixação do embrião nesta região. Agora, atenção, se a fecundação já tiver ocorrido e ovo já estiver implantado a pílula não tem efeito algum. Quanto aos efeitos colaterais a pílula tem uma carga de hormônios maior e por isso pode causar sintomas indesejados. Ela pode modificar o ciclo menstrual e causar sintomas como dor de cabeça, sensibilidade nos seios, náuseas e vômitos. E as contraindicações ao seu uso são as mesmas para as mulheres em relação ao uso de contraceptivos hormonais: alterações da coagulação, hipertensão grave, obesidade mórbida e, principalmente, nas situações onde há risco de trombose. Outra confusão, mais comum em adolescentes, é a amplitude da proteção fornecida pela pílula do dia seguinte. Ou seja, se, ao usar uma vez, a mulher fica livre para as próximas relações sexuais naquele mesmo mês. A resposta é não. O uso após a relação sexual suspeita serve apenas para a proteção desta relação que já aconteceu e não das demais que estão por acontecer.

          Para concluir vale lembrar que o uso sistemático do método não é indicado, já que se trata de método de emergência. E que o acesso à contracepção de emergência é um direito da mulher adulta ou adolescente que deve ser exercido sem preconceitos. A discussão enganosa e errada de que a pílula do dia seguinte é abortiva só atrapalha as mulheres que ficam tolhidas de serem ajudadas num momento tão delicado. E neste caso a sintonia entre a decisão do juiz americano e do governo federal brasileiro foi sensacional. Dá até para dizer que, neste caso, o que é bom para as americanas é bom também para as brasileiras. É a decisão MADE IN USA que serve muito bem pro Brasil. (Anne A. Moore. Journal Watch Women's Health. April 11, 2013)

 

Escrito por Dr. Alexandre Faisal às 21h42

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP. Formado em Psicossomática pelo Instituto Sedes publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" (Editora Atheneu). Participou do programa "Olha Você" do SBT e atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais em empresas sobre temas que tratam do universo feminino (Amantes na Arte, Mentes Inovadoras, O Erotismo).

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Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam às mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e bem-humorada das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.

Livro

Alexandre Faisal é coautor do livro "Segregos de Mulher - Diálogos entre um ginecologista e um psicanalista"



(Alexandre Faisal Cury e Rubens Marcelo Volich, Ed. Atheneu).

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